Fernanda Takai é atração na última homenagem a João Donato em BH

João Donato diz que ficou fã de Fernanda Takai assim que a ouviu cantando pela primeira vez   Será a sexta e última visita do pianista acreano João Donato a Belo Horizonte para o projeto que o homenageia pelos seus 80 anos. Tempo suficiente para conhecer vários sorvetes feitos na cidade (sua única exigência) e trocar momentos no palco com Toninho Horta, Aline Calixto, Dibigode e seu filho Donatinho, Marina de La Riva, Thiago Delegado e, hoje à noite, a cantora Fernanda Takai. Será no Centro Cultural Banco do Brasil.   “É um prazer desfazer a mala toda semana. Já estou acostumado ao carinho, receptividade, comida e cultura mineira”, elogia Donato. Entre os desdobramentos dessa temporada mineira, estão a participação numa faixa do próximo disco do violonista Thiago Delegado (que escreveu uma música em homenagem ao pianista) e o estreitamento dos laços com o grupo Bixiga 70 durante a etapa de Tiradentes do festival Mimo – em breve eles vão gravar juntos.   Sobre a colaboração com Fernanda Takai, Donato observa: “Desde a primeira vez que a vi na TV, virei seu fã. A voz é suave, doce e macia, qualidades que tinha a Nara Leão. Tanto é que Fernanda gravou aquele disco com repertório dela. Sempre gostei dela, desde o Pato Fu, e passei a gostar ainda mais quando tocamos juntos.” A primeira vez que dividiram o palco foi num show comemorativo dos 50 anos da bossa nova, em São Paulo.   No repertório dos dois estão canções conhecidas de Donato, como Gaiolas abertas, A paz e Lugar comum, além de Nunca mais (dele, Marisa Monte e Arnaldo Antunes) e Nagoya, que fez com Fernanda e seu marido, John Ulhoa, o guitarrista do Pato Fu. “Como eu sabia do parentesco dela com japoneses, pedi que fizesse a letra com o John. Ficou bastante interessante e ela chegou a gravar isso com uma cantora japonesa chamada Maki Nomiya.”   RETORNO O público de BH talvez não tenha tempo de sentir tanta saudade de Donato. O pianista promete para ano que vem contemplar a cidade na turnê que fará ao lado do pianista cubano Chucho Valdés, a partir de abril. “Vamos gravar essas apresentações e esse material dará origem a um disco”, avisa Donato. Paralelamente, o artista trabalha em suíte sinfônica baseada em movimentos dos compositores Claude Debussy e Maurice Ravel, com estreia prevista para março.   JOÃO DONATO E FERNANDA TAKAI Nesta quarta, às 20h, no teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Ingressos a R$ 10 e R$ 5 (meia entrada), à venda na bilheteria e na internet. Informações: (31) 34319400.    

por Eduardo Tristão Girão, em 26 de novembro de 2014 Caderno Divirta-se

Primeira edição do Porto Alegre Jazz Festival começa em outubro

Evento ocorre nos próximos dias 10 e 12, no Centro de Eventos do Barra Shopping Sul   Por Daniel Soares A cidade de longa tradição roqueira e de grandes nomes do blues está às vésperas de receber seu primeiro grande evento de jazz e que tem tudo para se integrar ao calendário cultural da cidade. A primeira edição do Porto Alegre Jazz Festival acontece de 10 a 12 de outubro no Centro de Eventos do BarraShoppingSul e irá trazer expressivos nomes do gênero, como a lenda cubana Paquito D’Rivera, o violonista norte americano Ralph Towner e o pianista brasileiro João Donato, que fará um show gratuito, na Redenção, comemorando seus 80 anos de vida.   Bares e cafés também se integram a essa atmosfera de liberdade musical desde o último dia 19, preparando o público para o que está por vir. “É um desejo que há muito tempo Porto Alegre esperava, um festival dessa dimensão, e não só pela forte cena instrumental da Capital, que já é quase um movimento”, diz entusiasmado o curador e um dos organizadores do evento, o também músico Carlos Badia. “A ideia foi construir um festival amplo, sem preconceitos. Nem tão conservador, nem muito ousado. E a proposta foi mesclar line up com músicos talentosos daqui, dar espaço a músicos tarimbados e que são pouco reconhecidos do público brasileiro”, completa o curador.   A afirmação demonstra bastante sentido ao incluir, por exemplo, o Grupo Pau Brasil no festival. Contando com nomes como Nelson Ayres e Paulo Belinatti, o grupo tem uma destacada carreira internacional com sua sonoridade ampla e contemporânea. O mesmo vale para o excelente guitarrista gaúcho Sandro Albert, que tocará pela primeira vez em Porto Alegre. Sandro, hoje radicado nos EUA, esteve no ano passado no Canoas Jazz Festival.   Com o slogan “Todos para o jazz”, o festival também quer inserir mais o público da Capital no universo do gênero e, desde o último dia 19, vem trabalhando numa programação paralela em três bares da cidade. Já aconteceram shows no Chalé da Praça XV e no London Pub. Os próximos serão no dia 3 de outubro, no Café Santo de Casa, como Dziw Jazz Quarteto, e no dia 9 de outubro, novamente no Chalé, com Quarto Sensorial. Além disso, um grupo itinerante, a Porto Alegre Jazz Band, irá percorrer vários pontos da cidade divulgando o evento. E dois livros tendo o jazz como foco serão lançados durante o festival.   A educação musical também é um dos focos do POA Jazz. “A gente tem esse viés na educação. Queremos ampliar a educação musical, proporcionar experiências diferenciadas na música, deixando um legado para a cidade”, diz Badia. Desta forma, dez escolas municipais de Porto Alegre terão oficinas realizadas com crianças e adolescentes, que serão ministradas por músicos e professores.   Foram selecionadas escolas que já utilizam a música como ferramenta pedagógica e os participantes continuarão aprofundando seus conhecimentos no ano que vem. “Uma futura Escola de Música do Porto Alegre Jazz Festival está nos planos. É necessário incentivar uma boa iniciação musical com as crianças”, avalia o curador.    

Correio do Povo, 27 de setembro de 2014

Brinde a João Donato!

Passagem dos 80 anos do compositor acriano é celebrada com lançamento de discos, documentário e shows no Brasil e na França. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mônica Salmaso e Luiz Melodia participam das homenagens. » IRLAM ROCHA LIMA

A música brasileira está em festa. Domingo próximo, completa 80 anos um gênio da raça: o pianista, compositor e arranjador João Donato, responsável pela fusão de ritmos latinos como jazz e criador de algo em torno de 400 canções—entre elas, incontáveis clássicos, da importância de Amazonas, A paz, Até quem sabe, Bananeira, Nasci para bailar, Lugar comum e Sambou,sambou. Nascido em Rio Branco, no Acre, desde a infância, o artista viveu num ambiente musical. O pai João Donato de Oliveira Filho, major da Aeronáutica e piloto de avião, nas horas vagas, tocava bandolim. A mãe, a dona de casa Eutália Pacheco da Cunha, gostava de cantar nas reuniões da família. Eneyda, a irmã mais velha, pretendia ser concertista de piano; enquanto Lysias, o irmão caçula, tinha talento para as letras e tornou-se o principal parceiro nas composições de João. A iniciação musical foi com um acordeon nos braços. Criou, aos 8 anos, a valsa Nini, a primeira composição. Em 1945, a família transferiu-se para o Rio de Janeiro e, em pouco tempo, João passou a frequentar o circuito musical do bairro da Tijuca e adjacências. Ao tentar a sorte no programa de Ary Barroso, esbarrou com a intransigência do apresentador, que recusou a escutá-lo, sob a alegação de que “não gostava de menino prodígio”. Enturmado, aos 15 anos, João participava de Jam sessions que ocorriam na casa do cantor Dick Farney, onde nasceria o Sinatra-Farney Fã Clube, uma espécie de clube fechado. Ele tinha ao seu lado, além do anfitrião, Johnny Alf, Paulo Moura, Nora Ney, Doris Monteiro e Jô Soares—que tocava bongô. Um pouco depois, integrando o grupo do flautista Altamiro Carrilho, tocou acordeon em duas faixas do 78 rotações: Brejeiro, de Ernesto Nazareth, e Feliz aniversário, de Altamiro. Foi sua primeira gravação. “Essas experiências iniciais foram importantes para minha formação como músico. À época, eu ainda tocava acordeon. O piano entrou na minha vida em 1953, quando fundei o Donato Trio e o grupo Os Namorados, com o qual gravei meu primeiro disco, constituído de versões instrumentais para standards da música americana, como Tenderly, de Nat King Cole, e o samba Se acaso você chegasse, do gaúcho Lupicínio Rodrigues”, recorda-se. João Donato e seu conjunto gravariam o primeiro LP três anos depois pela Odeon, sob o título Chá dançante, que tinha direção musical de um certo Tom Jobim. “O repertório era bem eclético e trazia, entre outras, Carinhoso (Pixinguinha), No Rancho Fundo (Lamartine Babo e Ary Barroso), Baião (Luiz Gonzaga) e Peguei um ita no Norte (Dorival Caymmi)”, lembra Donato.

 

Temporada na América

  Após temporada de dois anos em São Paulo, de volta ao Rio, com a bossa nova deflagrada, o pianista compõe e grava com João Gilberto, Minha saudade. No fim da década de 1950, segue para os Estados Unidos, onde durante seis semanas apresenta-se no cassino Lake Tahoe (Nevada). Ali, como integrante das orquestras de Mongo Santamaria, Johnny Martinez e Tito Puente, fundiu jazz com a música do Caribe. Logo em seguida, excursiona com João Gilberto pela Europa. O retorno ao Brasil, em 1963, foi marcado pelo lançamento, pela Polydor, dos LPs Muito à vontade e A bossa muito moderna de João Donato. Na segundo metade dos anos 1960, João muda-se para os Estados Unidos, e lá permanece até 1973. “Foi um período de atividade intensa naquele país, trabalhando com nomes destacados do jazz norte americano, como Nelson Riddle, Herbie Mann, Chet Baker, Bud Shank”, afirma. “Junto com João Gilberto, Tom Jobim, Moacir Santos, Sérgio Mendes, Eumir Deodato e Astrud Gilberto, todos radicados nos Estados Unidos, formamos um time que contribuiu para tornar o Brasil reconhecido musicalmente no exterior”, orgulha-se. Desde que retornou ao país, em 1972, João deixou de ser um músico e compositor ligado apenas ao segmento instrumental e passa a interagir com parceiros diversos, e investir na criação de músicas que ganharam letras. Com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Ronaldo Bastos, Nelson Motta, Martinho da Vila, Arnaldo Antunes e, claro, com o irmão Lysias Ênio fez várias canções. Boa parte delas, gravadas por ele e outros intérpretes, transformaram-se em clássicos da MPB.  

Nas frases do jazz

  » GABRIEL DE SÁ   Para celebrar as oito décadas de carreira, João Donato lança mão de um empreendimento fonográfico inédito em sua trajetória. O álbum Live jazz in Rio, a ser lançado no próximo dia 20, no Rio de Janeiro, ganhou dois formatos distintos: um para ser comercializado apenas nos shows e outro somente nas lojas. “Quando soube que João ia gravar disco ao vivo, coloquei a Discobertas à disposição—não só pra lançar, como principalmente para que o produto aproveitasse a integra do registro. Daí ocorreu-me a ideia de fazer dois discos complementares”, conta Marcelo Fróes, diretor do selo Discobertas, que lançou os álbuns em parceria com a Acre Musical, do próprio João Donato. O registro foi feito no encerramento do último Festival Jazzmania, em dezembro do ano passado. João Donato está acompanhado de seu trio e apresenta alguns de seus maiores sucessos, caso de Bananeira, Nasci para bailar e Emoriô. Destaque, também, para as interpretações de Song for my father e Paradise found. Ainda no Volume 1, Donato mostra ao público as novas parcerias com Nelson Motta, Moacyr Luz e Gabriel Moura. O jazz é que dá o tom das performances. O Volume 1 faz, no encarte, um convite para o ouvinte ir ao show e adquirir a segunda parte do registro fonográfico. No Volume 2, ocorre a mesma coisa. Os trabalhos serão lançados em show de Donato no circo Voador, no Rio, com participações de Caetano Veloso, Luiz Melodia e Wanda Sá.  

“Quero chegar aos 100 anos”

Aos 80 anos, João Donato esbanja energia, entusiasmo, bom humor e projetos. O segredo é viver 24h por dia ligado na música. Nesta entrevista ao Correio, ela fala sobre o privilégio e a alegria de ser músico.   Como você se sente ao chegar aos 80 anos cheio de disposição e recebendo tantas homenagens? Eu nem sinto que cheguei a esta idade. A responsável por isso é a música, que me mantém sempre em atividade, sempre criando. Acredito que tenho pique para chegar aos 100 anos. Quanto as homenagens que venho recebendo dos amigos, me deixa em estado de plena felicidade.   A música, então, funciona como uma espécie de aditivo para você? É mais do que isso. É o que me trouxe longevidade, é o que me renova e, obviamente, o que me proporciona extremo prazer. Vivo música praticamente todas as 24 horas do dia.   Sabe-se que você é um trabalhador obsessivo, que está sempre ao piano criando novas composições, novos arranjos. Qual é a sua motivação? Sou um privilegiado por ter a música como ofício. Quando estou ao piano, não vejo as horas passarem, tanto durante o dia quanto durante a noite.   Por falar em piano, quantos anos tem o instrumento que você costuma utilizar? É um velho Goldmann, de armário, que ganhei do meu pai quando tinha 11 anos de idade. Nele, compus boa parte da minha obra. Mas ganhei outros dois recentemente.   Que pianos são esses? Um deles é um Yamaha antigo, que me foi dado pelo Nelson Motta. O piano pertencia à mãe dele, Dona Maria Cecília, que gostava muito da minha música. Antes de morrer, ela orientou o Nelsinho para que me presenteasse. O outro é um Fritz Dobbert exclusivo, confeccionado recentemente, numa fábrica em São Paulo, com madeira curupixá amarela, extraída de uma floresta no Acre. Esse piano tem a minha assinatura e passará a ser comercializado.   Tem novos projetos em vista? Comecei a gravar dois discos para o mercado japonês, com músicas do meu repertório tradicional e standards de jazz norte- americano; e vou fazer outro em duo como Donatinho, com músicas nossas. Estou, também, finalizando a criação da Suíte Sinfônica Popular, que tem por base obras dos compositores franceses Claude Debussy e Maurice Ravel. As gravações, com orquestra sinfônica, serão em janeiro de 2015.   E o que vem a ser o Instituto João Donato? É uma instituição criada por minha mulher, Ivone Belém, e amigos músicos e jornalistas, que visa eternizar o meu acervo, composto de discos, fitas cassetes, partituras, manuscritos, vídeos, documentários, enfim tudo o que diz respeito ao meu legado musical. A Ivone é a presidente do Instituto.    

CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, quarta-feira, 13 de agosto de 2014 • Diversão&Arte

Ver todas